Emicida visita escolas ocupadas: “Tamo junto. Se for pra tomar umas borrachadas, nóis vai tomar também”

Ao invés de show, ele optou pela troca de experiências em um bate papo com alunos de duas escolas ocupadas na zona oeste da cidade

Quando saíram as primeiras notícias sobre a reação dos alunos paulistas ao projeto de “reorganização escolar” proposto pelo Governo do Estado, a palavra “invasão” era utilizada pela grande mídia para descrever a ocupação pacífica das escolas. Emicida estranhou: “Eu sempre faço uma conta que é muito simples: se é inimigo dos jornais, é meu amigo. Então eu vou colar lá nos caras para ver o que está acontecendo”.
E foi.

Na tarde de segunda-feira (07.12) ele visitou duas escolas da região oeste para um papo com o lado que realmente precisa ser ouvido nesta história: o dos alunos da rede pública. Por isso, a opção de não fazer um show.
“Sinceramente? Acho que o mais da hora de vir aqui é trocar uma ideia com vocês, porque é uma parada que me inspira, que me motiva. É este tipo de coisa que me faz chegar lá na minha casa, abrir meu caderno, escrever uma rima achando que ainda dá pra mudar o mundo”, explicou aos alunos da Escola Estadual Manuel Ciridião Buarque, a primeira visitada no dia.

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Emicida em conversa com alunos da E.E. Manuel Ciridião Buarque

Na portaria, um aluno fazia o controle de quem entrava e saía. Todos os nomes anotados em um caderno (e não houve tratamento diferente para artista!). Em seu crachá, a descrição: “Segurança – diálogo”. Pelas paredes, as regras de conduta para o bem comum. “Não fumar” era uma delas.
Por lá, um misto de curiosidade e respeito, daqueles que os professores sonham para a sala de aula. Ninguém conversava paralelamente ou interrompia a fala do outro. As perguntas giraram em torno da vida escolar do menino Emicida, que contou, por exemplo, da experiência traumática de ser transferido para uma escola longe das irmãs mais velhas, assim como planejava fazer agora o Governo do Estado. “Me senti desprotegido”, descreveu.

Segunda parada inesperada
Não estava nos planos originais, mas a visita à Escola Estadual Romeu de Moraes foi uma grata surpresa. Por lá, Emicida foi guiado por três alunos para conhecer todas as dependências da escola-ocupação. A sala com barracas, a barricada para evitar a entrada da policia.

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Sala de apoio e acampamento dos alunos da E.E . Romeu de Moraes

A primeira surpresa: papel higiênico no banheiro. “Eu fiquei pensando: eu nunca vi papel higiênico na minha escola, em todos os anos que estudei! Uma vez tive que ir escondido no banheiro dos professores, maior trampo de espião!”.
A pequena comitiva da curiosidade cidadã ainda passou por uma sala onde diversos livros estavam embalados, e por lá os meninos contaram sobre as bolas de futebol novas que acharam, além das de pingue-pong, após meses jogando com as estragadas.

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Em uma das salas de aula da E.E. Romeu de Moraes: a aluna Gabriela, do terceiro ano, Emicida e um representante da ONG Minha Sampa

O tour com Gabriela Olivieri, Matheus Estimo e Willian de Andrade, alunos do terceiro ano do Ensino Médio, acabou virando um longo papo na antessala da diretoria. Os meninos surpreenderam pela maturidade e, especialmente, porque colocaram sua entrada na faculdade em risco para lutar contra uma mudança que não irá interferir diretamente em suas vidas. Emicida lembrou da sensação de despedida do último ano da escola, e quis saber sobre os sentimentos conflitantes deste momento (veja o vídeo no final da matéria). Os alunos contaram que o orgulho de vivenciar essa experiência é a verdadeira formatura deles.

E não é pouca coisa. Ao currículo escolar, somaram as disciplinas de ameaça (“ligaram para a minha mãe para dizer que eu estava vandalizando a escola”, “ameaçaram um pai de aluno de prisão porque o filho dele era menor de idade”, “um pai foi ameaçado de demissão por ser funcionário público”), injustiça (“um professor que não era concursado foi demitido”, “vi um policial pisar na cabeça de um menino e outros cinco o chutarem”) mas também de amadurecimento (“tem gente aqui que nunca tinha lavado uma louça e agora está limpando o banheiro da escola”).

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Emicida, Rael e a pombinha que também foi ouvir a conversa na E.E. Romeu de Moraes

Com a chegada do rapper Rael, que também tinha visita programada para a escola, a conversa passou a uma roda no pátio. De tão interessante, até uma pombinha burlou o sistema, passou por baixo da perna dos alunos e parou estática na frente de Emicida, que não perdeu a deixa: “O bagulho é tipo Arca de Noé, até os bichos estão colando!”. Por incrível que pareça, ela só arredou as patas depois que os dois aceitaram a sugestão dos alunos e cantaram uma música juntos, finalizando a experiência de uma tarde inesquecível.

Veja algumas das frases de Emicida para os alunos:

“Tamo junto. Se for pra tomar umas borrachadas, nóis vai tomar também”

“Eu nunca me senti representado pelo mundo que me cercava, e não queria me adequar àquilo. O que eu podia fazer para mudar o mundo, para ao menos contribuir com essa mudança, era fazer minha música, fazer uma rima”

“Não se adequar a uma sociedade doente é muito saudável. É o que mantém nossa cabeça e nosso coração funcionando. E vocês precisam entender que abriram a porta, que não tem volta. Ninguém mais vai dormir agora”.

“Vocês conseguiram criar um símbolo muito forte de ocupação e resistência, só que agora tem os próximos passos. Vai ficar mais difícil resistir. Porque o outro lado é organizadíssimo pra que esse lado não vença. Então a gente vai ter que estar ‘organizadíssimoíssimo’ para firmar que não somente vocês sejam ouvidos, mas que para toda ação que venha do poder político a sociedade seja consultada”.

Mais vídeos da visita:

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