“Eu dou minha opinião, mas deixar isso aí ser maior que a minha música é foda”

Confira trechos inéditos da entrevista que Emicida deu ao jornalista Vinicius Felix, para a revista Brasileiros, em 2015

No primeiro semestre de 2015, o jornalista Vinicius Felix teve uma série de conversas com Emicida para compor seu perfil, que foi a capa de julho da revista Brasileiros.
Quem trabalha com edição de texto sabe como é difícil selecionar o que entra e o que sai de uma entrevista, porque nem tudo cabe no espaço disponível para publicação ou na linha de raciocínio trabalhada naquele contexto.

Agora, alguns meses depois de a revista sair,  Vinicius compartilha com a gente, na íntegra,  a primeira destas entrevistas, feita antes de Emicida embarcar para gravar o disco Sobre Crianças, Quadris,  Pesadelos e Lições de Casa – que até então se chamava Ubuntu –, na África. “E eu lembro bem da primeira frase que ele me disse quando voltou de lá: ‘Mudou tudo, mano'”, escreve o jornalista na introdução à entrevista, publicada originalmente na plataforma Medium.


Entrevista: Vinicius Felix
Foto: Luiza Sigulem

Como foi a participação sua no Porto Musical? As pessoas gostaram da palestra, se interessaram?
Sim. Fomos lá compartilhar a história da Laboratório Fantasma, que pra gente é uma coisa meio trivial, pra gente todo mundo fazia o que a gente faz, só que não é assim. A gente é um ponto fora da curva. Se você tem a oportunidade de tá em contato com a história daqui desde o começo, a história daqui é apaixonante, porque, sem modéstia nenhuma, a gente vive um sonho, sabe? A gente faz o que a gente acredita, em um lugar que a gente construiu com nosso próprio esforço. Cada vez que a gente ruma para cá é a gente se conectando com nosso sonho de uma maneira mais intensa, dia após dia. Cada uma das pessoas que trabalham aqui, antes de qualquer outra coisa, são amigos nossos que amam música e estão dispostos a se esforçar para cada vez mais fazer a música alcançar mais pessoas, se fortalecer. É meio que a arte cuidando da arte. Você ter a oportunidade de contar isso para colegas… Colegas é bom, viu? (risos) Colegas do ramo…

Eles não tem essa rotina…
Sim, porque você muitas vezes tá no meio de uma empresa que você tá ali, mas você não ajudou a construir aquilo, você tenta se conectar com a história daquilo, mas não sente muito a energia daquilo, sabe? E muitas pessoas desistem do que elas acreditam por causa do modus operandi da indústria, sabe? Elas começam a se habituar, o que é fácil, começam a bater o cartão em alguma coisa que paga o seu salário e você deixa de acreditar na coisa que fez você se aproximar daquilo.

Aqui você não bate cartão ou tem salário, certo? Você não poder parar, tem que seguir trabalhando…
Aqui não existe. Quer dizer, hoje na estância que a gente tomou o meu salário oscila, o dos funcionários não. O salário das pessoas que trabalham aqui não pode ser incerto como os meus rendimentos.

Quanto tempo de Laboratório Fantasma? Seis anos? Oito anos de carreira? É isso?
Minha carreira são dez já. Se a gente pegar os primeiros registros, a gente tem até mais tempo. Porque é o seguinte, eu não sei exatamente desde quando eu começo a contar que eu tenho uma carreira. Porque se eu for contar de quando eu comecei a me apresentar, a gente tem dez anos, se eu for contar quando a imprensa começou a reconhecer que eu existia, aí a gente tem uns oitos anos, sete anos, e seu for contar desde quando eu comecei a me aventurar mesmo nas batalhas de MC, vai parecer que eu tenho 15 anos, 20 anos de carreira… (risos). Então, esse ano a gente conta como dez. Entendeu?

Para a matéria queria muito falar de perspectiva. A primeira vez que eu te entrevistei você já tava na segunda mixtape, mas ainda em fase de reconhecimento, me parece. Hoje você tá mais tranquilo quanto a isso, como você olha para esse passado? Se sente mais leve, mais tranquilo?
Já. Graças a Deus. Passou. (risos)

Você lançava música todo ano, o tempo todo. Lembro de te entrevista e você falar que tinha que imprimir um ritmo de trabalho. Agora você trabalha diferente?
Ah, você precisa mostrar serviço, né? A gente vive em um tempo em que a informação é consumida de uma maneira muito maluca. Poucas pessoas tem se conectado de verdade com uma história que não seja a de si próprio. Isso tem muito a ver com o tipo de ritmo que eu tentei imprimir nessa época, sabe? “Eu preciso me manter relevante, preciso aparecer e preciso ser visto”. E naquela época eu realmente precisava, tinha conseguindo uma abertura de porta no mercado que em geral não se abre para o hip-hop. Então foi importante ali em 2009, 2010, fazer aquele monte de programa de televisão, fazer uma série de aparições e produzir coisas que eu considerava que eram importante para a imagem, até mais para a imagem do que para música. Porque, no final das contas, as duas acabam conflitando. Quanto mais você atende as demandas que surgem por conta da sua imagem, menos tempo você tem para se dedicar para a música. Então eu tava mergulhado nisso aí nessa época.

Hoje tem uma outra questão, eu tô com 29, quase 30 aqui, meu. Naquela época, eu tava com 23, 24, não era pai, tava numa vida meio maluca. Eu tinha que pagar meu aluguel só e a vida era uma festa. Tava difícil, mas era uma festa. Olhar daqui com a maturidade desses meus quase 30 — meu espirito é mais velho, mas meu corpo tem 29 — olhar daqui com essa maturidade é muito bom. Hoje eu consigo ver a grandeza de tudo que a gente fez.
Naquela época também eu tinha muito questionamento interno, sabe? Será que eu devo fazer isso? Será que é isso? O que será que fulano vai falar achar?

Mesmo? Sempre te achei muito confiante no que queria fazer.
Então, mas pra fora eu sou confiante, pra dentro, naquele momento ali, eu tava com muitas dúvidas. “Será que esse deve ser meu caminho mesmo?”, me perguntava. “Eu queria ser desenhistas de histórias em quadrinhos, que que eu tô fazendo fazendo música?”.
Sacou? E aí, de repente, eu vi que eu tinha uma oportunidade de tocar um sonho que eu compartilhava e eu tinha realmente um amor muito grande pelo lance de contar uma história, de fazer música fazendo isso.

E agora com o novo disco? Antes você fazia em casa, recebia as músicas, era artesanal. Depois, o primeiro disco você fez em estúdio. E agora com a viagem? Como vai ser essa viagem? É inspiracional, você vai chegar e gravar lá?
Vou. Eu quero. Primeiro a gente vai definir algumas coisas aqui, têm algumas coisas pré-produzidas. O que é importante eu falar para você é que ele não é um disco de clichê sobre a África. Eu quero fugir muito desse negócio de ir lá e de fotografar tribos e coisas do tipo. Talvez meu Instagram tenha isso, no disco vai ter menos ou nem vai ter. Vai ser um disco do Emicida só que com uma imersão de um outro tipo de música que tem uma ligação com a nossa por causa das pessoas escravizadas que vieram para cada no século retrasado.

Você fala em um disco sobre a relação Brasil e África. A gente sabe que a música é de origem de lá…
Tudo é origem de lá.

Tudo é de origem de lá, mas isso é pouco explorado de forma tão clara. É um objetivo?
Acho que alguns caras, por exemplo, o Djavan tem umas experiências, tem uma música dele que chama Luanda. Tem alguns outros artistas, o próprio Paul Simon tem uma parada na África e alguns caras já fizeram esse tipo de coisa.
Acho, por exemplo, fazer uma matéria com um cantor de rap não é a primeira vez que tão fazendo, mas você faz aquilo do seu jeito, com sua perspectiva, sua experiência de vida vai mostrar um ponto de vista completamente diferente do que foi feita outras vezes.
A mesma coisa a gente faz agora, não é a primeira vez que alguém tá fazendo uma imersão desse tipo, mas acho que no nosso tempo e com a força que a gente tem hoje vai ser muito importante.

O Brasil precisa falar muito mais sobre africanidade e de uma maneira mais abrangente. O tema do racismo é muito importante, mas o tema do racismo não é o norte do disco, sabe? A gente precisa bater nessa tecla, é muito importante a gente entender que a escravidão não definiu a história da África, ela interrompeu a história da África. E aí, nessa fusão Brasil, Angola, Brasil, Moçambique, Brasil, Cabo Verde.

Foi interrompida e virou uma outra história com todas as dificuldades e o absurdo que foi…
Sim, a gente acabou adquirindo um vínculo com esse lugares que criou o que a gente é enquanto brasileiros.

E o nome do disco, Ubuntu? Faz tempo que você usa essa palavra em posts seus nas redes sociais, queria saber, já tem uma música sua com esse nome…
Na verdade… Sim, a última música do disco se chama Ubuntu, é como se fosse o final da história do Glorioso. Eu gosto de desenhar o disco como se ele fosse contar uma história. Esse projeto nasce com o nome de Ubuntu, mas eu não sei te dar certeza de que até o final ele vai se chamar Ubuntu, sabe por quê? Toda vez que eu olho para esse nome nesse projeto eu me sinto como o pai que deu o nome pro filho antes de engravidar a mulher.
Isso que eu queria saber, o disco nem tá pronto…

É isso. Eu nem sei se vai ser menino ou menina. Eu gosto de pensar no nome depois que eu escuto o disco. Com exceção do Glorioso, ele é uma parada muito maluca, uma relação espiritual, o nome é de 2005. Sabe? Tem umas coisas em casa que eu até tirei fotos para posteridade quando lançou esse disco. É foda. Já tinha esse nome, mas é um nome que só faz sentindo depois que você fez uma carreira maluca que nem a minha, de lançar um monte de mixtape e aí agora o Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, então fez sentido…

Eu sempre tive o hábito de ouvir os discos e conversar com eles, eu vou entendendo eles durante o processo, às vezes até junto com as pessoas. Então talvez o nome tenha vindo prematuro, mas a gente precisava definir isso e dar um nome, ubuntu faz justiça a isso. Mas ubuntu é uma palavra que não tem vínculo direto nem com a língua portuguesa e nem com os países onde a gente vai passar. A palavra ubuntu nesses outros lugares existe como uma filosofia que tem outro nome e eu nem sei qual é o nome em cada uma dessa regiões porque você tem ali o português e também os dialetos locais, que alguns estão morrendo e alguns ainda tem uma força muito grande, mas não é uma palavra comum nos lugares onde a gente vai.

E a viagem já tá planejada, já sabe para onde vai, tem coisa combinada? Vai ter show por lá também?
Não, mas eu nem quero também. Porque nesse momento eu acho que é importante focar no disco, seu eu começar a pensar “não, vou fazer um show”, eu vou querer montar um repertório especial, se eu vquiser montar isso já perco o foco do disco porque eu vou querer pesquisar música de cada um dos lugares. No ano passado, eu pesquisei muita música africana e isso é muito bom porque agora eu entro nesse disco com um certo preparo já. Nesse monte de viagem que a gente tem feito, eu sempre tenho a oportunidade de comprar disco, principalmente em Portugal, que tem uma relação bem interessante com Angola no sentido de publicar algumas coisas de lá. Então eu tenho sempre a oportunidade de fisgar alguma coisa de literatura angolana que vai até Portugal, mas não chega no Brasil. De Moçambique também. Então eu conheci esse caras, tipo Mia Couto, José Eduardo Agualuza, Paulia Xiziane.

O Mia Couto saiu na Brasileiros há pouco tempo…
Pô, preciso ir atrás. Ele é foda, sou fã dele, o jeito que ele escreve é muito bonito. Eu tô lendo um livro dele agora, um famoso, chama Terra Sonambula. Pô, ele tem um jeito muito poético de falar sobre tudo.

Essa literatura está inspirando as letras?
Sim. Eu tenho algumas coisas que já estão pré-definidas. Eu tenho uma música chamada Boa Esperança e boa esperança é o nome de um navio negreiro de um livro do José Eduardo Agualuza, que é um navio no qual um padre viaja e faz o caminho contrário da escravidão. Ele nasce em Pernambuco e volta para Angola, depois volta para Pernambuco e volta para Angola também, ele fica cortando o oceano a bordo de outros navios, mas o primeiro que ele viaja é o Boa Esperança.

Esse livro é 100% ficção?
Na verdade, é um romance pautado em fatos históricos reais. Tem uma pesquisa muito interessante, se chama Rainha Ginga. É um livro bonito pra caramba, eu acabei de ler. Nas férias eu fui para Madagascar e aí eu não fiz nada, fiquei lendo esse livro.

E a pesquisa sonora, acha que vai pintar um disco muito diferente dos outros?
Eu não quero fugir muito dessa coisa de ser um disco de rap. É um disco de rap, é um disco do Emicida, é importante que a gente tenha isso como norte. Mas tem uma coisa que eu já flerto há algum tempo e que talvez as pessoas que consomem o rap como um subproduto da música americana no Brasil não consigam entender até onde o disco vai. Mas eu acho que o rap como música falada se funde perfeitamente com a música brasileira e é nesse caminho que eu vou, é nesse caminho que quero construir minha carreira. Quando você tem uma música tipo Sol de Giz de Cera, Crisântemo, a própria Ubuntu, ela tem uma coisa da fala imprimir um ritmo que é muito próximo do que o samba já fez em vários casos. Se você pega Jovelina Perola Negra, Moreira da Silva, Martinho da Vila, o próprio Zeca Pagodinho e muita coisa do partido alto, Dicró, por exemplo, o Bezerra. Tem muita coisa falada ali, muita coisa interpretada. O samba de breque tem essa coisa de parar, interpretar, contar uma história. Acho que o rap se encontra ali. O repente tem isso, o coco tem isso, os violeiros do Norte também tem isso, sabe?

Então, minha música tem mirado nisso e o que mantém ela próxima do hip hop é esse afeto que a gente tem pela estética do que os americanos criaram, mas não é uma tentativa de reproduzir, talvez no anos 80 fosse. Quando aquilo chegou todo mundo queria ser o NWA, o Africa Bambaataa. Pô, eu tenho muito orgulho de ser da Norte, a Zona Norte é talvez o primeiro lugar onde o rap teve uma “nacionalização”.

Quando você tira o Jair Rodriguez com Deixa que Digam, que onde a gente já reconhece que ali já tinha uma coisa de música falada, você tira aquele lance do Miele, que também algumas pessoas falam que é o primeiro rap, aí você tem uma grande quantidade de rap que tinha influência dos Estado Unidos, mas aqui na ZN tinha um grupo, que curiosamente chamava The Brother’s Rap (risos), mas o rap deles chamava RapAgode, sacou? E isso foi uma coisa que aconteceu aqui na Zona Norte e talvez tenha sido a primeira imersão, isso é de 1988. Depois eles se tornaram o Spainy e Trutty e fizeram um certo sucesso, mas eu acho interessante que esse caminho tenha sido sugerido na mesma região que eu nasci. Acho que eu tenho que fazer justiça a esse tipo de história, é uma trajetória que me encanta muito e acho muito importante.

Você comentou que em 2014 ficou pouco no estúdio e fez muito show? Foi bom isso?
Foi bom pra caramba porque areja sua cabeça. É bom você parar, sair. É igual você que vive de escrever, sabe? É bom você parar um pouco de produzir, cruzar os braços, parar de dar sua perspectiva para o mundo e ouvir o que os outros estão falando, é bom ouvir também, isso é um ensinamento do jazz. Ouve, porque quando você ouve consegue entrar na história de uma maneira melhor, entendeu? A gente é uma válvula por onde a história é contada, a gente não é a história. Na música, eu vejo como isso. Eu sou por onde a história saí, ela podia sair por outra pessoa, mas essa história veio para mim, eu tenho que contar ela. Aí você entra num reflexão de ego, de vaidade, de “eu descobri essa história”, mas a história tava lá, essa história não é você.

Você quer mexer na história…
Você quer dar aquela lustrada nela, deixar ela mais vendável, porque aquilo vai reverberar de uma maneira profissional que vai ser positiva pra você.

Você sente alguma pressão de moldar uma história, deixar mais vendável?
Não porque eu sou meu chefe, meus funcionários podem discordar de mim, mas em última instância eu consigo dobrar eles (risos). Mas, graças a Deus, a gente se respeita muito, conversa muito.

Mas já chegou no ponto de “ok, mas vamos fazer uma mais vendável”?
“Mais vendável” não porque a gente trabalha com comunicação, a gente sabe com quem a gente se comunica. Talvez seria esquisito se eu fosse para um campo totalmente diferente disso, mas aí ia soar artificial. Eu posso alcançar muita gente, mas só se eu fizer justiça a trajetória natural que eu venho traçan
do, contando uma história que tem a ver com a história que eu comecei contando.

Você comentou de fazer muitos shows ano passado, como foi a turnê do disco de modo geral?
Foi bom. Sendo bem sincero, embora a gente tenha bastante coisa diferente nas mixtapes, já tinha uma coisa de flertar com a música brasileira.
No show, algumas músicas antigas viraram samba…
Eu já queria fazer isso. E pro show eu queria fazer uma coisa que acontece raramente, queria uma formação diferente e queria um show de rap brasileiro. E não tem como falar de Brasil sem levar o samba lá para dentro. Acho que quando as pessoas quando vão arranjar um show de rap com banda ele pende pra dois lados: ou ele vira uma coisa meio funk 70 ou vira meio rock. Eu queria o caminho do meio, queria o peso da banda, queria a dinâmica DJ e MC, que eu acho muito valiosa, mas eu queria também explorar esse nosso suingue de brasileiro de uma maneira diferente no palco.

E o show foi sendo moldado na estrada?
Foi. Mudou da água para o vinho. Meu show já foi tudo isso que eu tô condenando. (risos).
Sentia quando tava muito rock, por exemplo. O Glorioso tem muita guitarra…
Sentia. E eu gosto do peso do rock, no disco é coisa do Felipão (produtor), ele é roqueiro de verdade, eu sou tipo roqueiro amador, meu rock é samba rock. Então, durante todas as formações que a gente teve eu sempre fiquei pensando nisso, a gente pende muito para o rock e acho que tem um peso da nossa música que eu preciso trazer pra cá. E isso eu tô aprendendo a fazer…

Tá em processo…
A gente tá sempre em processo, acho que essa é a visão mais bacana que eu posso ter e a mais saudável para a minha música: eu sou um artista em processo. Embora as pessoas já tenham uma ideia do que é o Emicida, eu não posso me prender a isso, eu preciso refletir sobre a minha construção e sobre a história que quero continuar contando.
Você não divide sua carreira em fases, por exemplo?
Não, porque se eu tô pulando de fase em fase, já já eu tô na fase final, eu mato o chefe e acabou o jogo (risos).

Indo para outro caminho, fala do festival Ubuntu, realizado no ano passado, qual sua avaliação? O festival reuniu artistas de diversos estilos musicais.
Sim, a gente tinha um sonho antigo de fazer um festival com as músicas que a gente gosta. Não tem nada mais legal que apresentar algo legal para outras pessoas. Teoricamente, o moleque que escute Emicida com 16 anos não chega no Boogarins. E o Boogarins não consegue chegar nele por algum motivo estético ou qualquer outra coisa. Mas aí quando você oferece uma experiência de tudo isso tá junto, a cabeça desse moleque abre de um outro jeito. Aí, ele começa a perceber coisas semelhantes na Céu, no Boogarins, no Rael, no Emicida. Isso é interessante, nisso que a gente precisa investir para começar a criar uma cultura de consumo de música que não esteja conectado ao rótulo. Até hoje a gente se comporta muito com o esse pensamento arcaico de (engrossa a voz) “AH, ISSO É UM SHOW DE RAP! OS RAPPERS VÃO NO SHOW DE RAP”. (risos)

A imprensa curte isso. A suposta rivalidade do pessoal dos anos 80/90 com a sua geração, por exemplo.
Vende demais essa tentativa de criar uma ruptura. E muitas das críticas que as pessoas tem infundadas é porque elas acham que eu disse isso por coisas que saíram de maneira pouco clara na imprensa, como se eu tivesse me posicionado que “eu sou o diferente” e isso não é verdade. Aliás, sou o cara mais chato da minha geração, aquele que bate na tecla de “vamos escutar o que aconteceu antes para entender”. Porque a única coisa que difere a minha geração da geração anterior é o posicionamento com a imprensa. Os caminhos criativos, talvez. Mas os artistas antigos também tinham essas diferenças. Quando você fala de arte é muito delicado você colocar um grupo artístico inteiro dentro de um pacote. É um série de indivíduos, sabe? Cada um tem seus caminho isso.

O festival Ubuntu briga por isso?
Eu acho que o festival sugere isso. A palavra que eu tô apaixonado agora é sugestão.

Por quê?
Porque sugestão que é foda. O festival foi uma sugestão. “Olha, pode ser isso”. E as pessoas saem dali com a cabeça oxigenada pensando, “porra, podia ter umas coisas mais diferentes e tal porque é muito segmentado”. E segmento, com todo respeito, é uma bosta. Você dialogar com uma única cena, sabe?

Lembra o papo do game over, uma hora você já falou com tudo mundo.
Cansa, realmente cansa porque as pessoas ficam meio que correndo atrás do próprio rabo. Eu no começo, quando mergulhei nessa coisa de cena, eu achei fascinante porque tinha uma coisa meio de rebanhar, sabe? Todo mundo usava o boné parecido, a camiseta parecida, coisa de adolescente, “aqui é meu lugar no mundo, eu vou ficar aqui”. Hoje eu acredito em uma coisa completamente diferente. Acho que quanto mais gente diferente tiver ali melhor. A evolução, principalmente do nosso discurso vem do conflito de colocar gente diferente ali e a gente ter que discursar na presença de gente que não pensa igual a gente. É dali que vai surgir a evolução, é ali que a gente vai mudar os pensamentos. Aí a gente começa a sugerir… (risos).

Eu acho que o festival fez foi isso. Acho que quando a gente consome hip hop achando que os Estados Unidos são insuperáveis temos um problema muito sério com o que é produzido no Brasil, acaba meio que proibindo os artistas brasileiros de serem grandes, de sonhar alto. Parece que você vai ser sempre um sub de algum artista da América do Norte, que vai vir aqui e a gente vai ter que abrir o shows deles.

Quando você apareceu a gente vivia um momento em que era mais difícil entender o futuro do mercado da música. Download pirata, download grátis, o streaming ainda não tinha começado. Você lida melhor com o mercado hoje? E o fã de música?
Eu lido melhor com o mercado, mas não eu também posso pensar em cair dentro do modus operandi de quem veio antes de mim. O grande equívoco que se comete é esquecer que o mundo tem se redefinido cada vez mais rápido, o consumo de música então, pelo amor de Deus. Só essa semana já tem mais três aplicativos novos de streaming.
Trabalhar com o digital na América Latina é muito mais complexo. Primeiro porque a cultura do download grátis chegou antes da cultura do download remunerado, então você tem que fazer o caminho dobrado para explicar para as pessoas que o artista têm que receber por aquilo. E como convencer as pessoas a pagar teoricamente por fumaça? Você tem o costume de pagar por algo que você pode pegar, se você não pode pegar teoricamente você não tá pagando por alguma coisa, parece que você tá pagando por um serviço que não tá recebendo. Estruturalmente acho que o download legal no Brasil ainda precisa passar por uma série de etapas. Por exemplo, para ter uma conta no iTunes você precisa ter cartão internacional e não é todo mundo que tem, então fica ali naquele nicho de 10%, 20% do público que pode consumir aquilo de maneira religiosa.

Isso te preocupa muito?
É uma preocupação diária na minha vida. Não só como empresário, mas como artista porque vou fazer isso daqui o resto da minha vida. Eu tenho que sacar como as pessoas consomem música. Para mim são interessante os 80% que talvez não seja para a Apple. Sacou? Não dá para refletir “Ah, eu tô feliz porque a música foi a mais baixada do iTunes essa semana”. Isso aí é legal, mas eu preciso entender como me comunicar com ambos os lados da moeda e o Android é muito mais popular. Como encontrar um campo onde esses dois mundos dialoguem? É complexo, é uma reflexão que a gente tá no meio, não tá no fim e a gente não vai ver o fim disso aí.

Tem gente que fala do fim da televisão faz tempo, mas eu não acho que a gente tá perto do fim da televisão. Aqui não, nos Estados Unidos talvez no sentindo do Netflix produzir conteúdo e começar a bater as série de televisão e aquilo começa a dar mais ibope que as séries tradicionais em canais tradicionais. Aqui não, aqui a gente ainda tem uma mídia bem conservadora. Essas ideias novas precisam ganhar muito mais corpo e elas não vão ganhar respeito por serem novas, elas só vão ganhar respeito pela pressão, que eu acredito que é a mesma coisa que aconteceu com minha carreira. Eu não sou um artista que fui inserido pela novidade que eu trouxe, eu sou um artista que foi inserido por causa da pressão. “Oh, a quantidade de coisa que isso aqui movimenta e vocês tão olhando para o outro lado”.

O que precisa acontecer com todos os gêneros do mercado é isso. O rock nacional, por exemplo, não passa pelo seu melhor momento, muitos dizem, então ele precisa fazer pressão novamente, se conectar, mostrar sua autenticidade novamente para fazer que as pessoas briguem por isso. Isso é foda. O hip hop tá nessa momento, o hip hop tá disposto a brigar, porque é a cultura dos favelados e a gente briga desde que nasceu, então lutar é o nosso estado natural, é isso que vai acontecer.

A falta disso talvez seja um dos fatores do rock nacional ter estagnado?
Acredito que tem uma coisa muito maluca, o rock sempre foi uma música de novas ideias, principalmente quando a gente fala do Brasil nos anos 80. Tinha muita coisa que era considera subversiva, que enfrentou a ditadura, coisa do tipo. Ali vocês tem símbolos fortes. Você pega um símbolo que tinha uma força no rock, tipo o Lobão, e de repente ele se torna o contrário do que ele era. Acho que isso aí derruba muita coisa na cabeça de muita gente.

Dá um nó.
Dá um nó na cabeça de muita gente e parece que vários outros artistas estão disfarçados ali, sabe? O posicionamento da cada um é livre, óbvio, mas começa a se atribuir a um gênero o pensamento conservador e aí esse é um momento delicado. O momento da cena que todo mundo tem 15, 20, 25, 30 anos, é maravilhoso todo mundo ser diferente. O momento do julgamento, da avaliação, da análise do que foi construído é quando todo mundo da cena tem 35, 45, 50 anos.

A história do Lobão é uma coisa muito interessante para gente olhar porque acho que o mercado que impulsionou ele para isso. Ele tentou lançar música. Tem umas coisas que a gente precisa reconhecer que ele fez. Acho que a revista Outra Coisa foi uma iniciativa foda. Eu vi muito ali de música independente que eu não veria nos veículos tradicionais de música. Lançar o BNegão com os Seletores de Frequência? Isso foi foda. A gente tem que tirar o chapéu pro Lobão nesse aspecto aí. Só que quando ele nega tudo isso, pô, você vê que ele tinha um corre de tentar fazer a música dele, mas o Lobão de um tempo para cá… As pessoas valorizam muito mais a opinião do que a música, quando você deixa as pessoas colocarem sua música em segundo plano é um problema sério, o mercado colocou a música dele em segundo plano e começou a ir nessa onda de “Ah, fala mal de fulano, fala mal de ciclano” e ele começou a virar destaque porque ele aparecia com isso.

Em entrevistas, o Lobão sempre nega que isso tenha acontecido com ele. Você tem algum receio de que isso aconteça com você, sempre te procurarem para repercutir uma polêmica, por exemplo?
Eu dou minha opinião, mas deixar isso aí ser maior que a minha música é foda. Acho que é com isso que tem que ter cuidado. É um artista, eu fico triste enquanto artista porque as pessoas deixam de respeitar a música dele (Lobão). Eu fico muito triste quando a música deixa de ser respeitada, é nesse sentido que eu penso em relação a ele. Quando ele falou da gente, quando falou de mim, todo mundo queria um posicionamento, todo mundo queria uma resposta imediata e eu não quis dar uma resposta ali, não preciso dar uma resposta. É triste ver um artista atacar o outro. A gente vive de fazer música, a gente vive de arte. Se a gente que é os caras que sugerem um pensamento novo para o mundo, se “os caras cabeça aberta” não consegue trocar ideia por causa de politica, fudeu. Eu posso ter minha posição política por causa das experiências de vida que eu tive e você pode ter as suas, sério, não vai ser por isso que a gente vai brigar.

Na eleição de 2014 você chegou a se posicionar, teve algum arrependimento?
Cara, talvez eu tenha ido muito longe, mas não é algo que eu chegue me arrepender. Me arrependo muito mais porque eu gosto de andar na rua sem as pessoas me reconhecer. Como tava uma eleição com todo mundo com os seus nervos a flor da pele, aí passou eu lá, puta que pariu. Eu saio nas rua e os caras que gosta da Dilma já falam “Aew, Emicida. É isso mesmo”. E meu bairro era só Aécio.

Teve que ouvir?
Mas ninguém fala nada para mim não. Vai falar o quê? Eu sou a síntese desse outro Brasil no meu bairro, e pode se preparar que vai vir mais.

Para conferir a postagem original de Vinicius Felix, clique aqui.


Para ler o perfil e a entrevista ping-pong publicadas pela Brasileiros em julho de 2015, clique na capa da revista:

emicida-revista-brasileiros

 

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